Descubra como o lifelong learning e a Indústria 5.0 estão moldando o futuro do trabalho, unindo tecnologia, propósito e desenvolvimento sustentável

Um ditado, erroneamente (até onde consegui averiguar) atribuído à tradição chinesa, diz mais ou menos o seguinte: "Que você possa viver em tempos interessantes". Essa frase foi repetida inúmeras vezes por pensadores de diversas nacionalidades para representar momentos de mudança e instabilidade, simultaneamente fascinantes e perturbadores.

A Indústria 4.0 (e a Educação 4.0 também) era caracterizada pelo avanço tecnológico a qualquer custo, a tecnologia como fim em si mesma. A rapidez e a mudança acelerada que o avanço exponencial da tecnologia trouxe só fizeram aumentar a instabilidade e a ansiedade. É para esse movimento que Bauman (2007) nos alertou sobre em Vida Líquida. As relações não duram, não tomam forma, e a humanidade perde o protagonismo de sua própria trajetória para a tecnologia.

A Sociedade 5.0 e seus desdobramentos para o mundo do trabalho (Indústria 5.0) e da Aprendizagem (Educação 5.0) têm como compromisso recuperar a centralidade do ser humano e parametrizar o desenvolvimento tecnológico a partir das necessidades humanas. Pode parecer utópico demais, mas a União Europeia, em 2021, lançou as bases do que seria uma Europa mais humanizada e sustentável (Breque, De Nul, Petridis, 2021).

Leia mais: Educação 5.0: A nova força moldando o futuro do ensino superior

Indústria 5.0: da automação à humanização

Embora seja um avanço significativo em relação à visão totalmente centrada na tecnologia da Indústria 4.0, o movimento do 5.0 não representa um rompimento em relação ao seu predecessor, mas uma ampliação da visão de mundo. A quarta revolução industrial se apoiou em digitalização, conectividade e automação e deixou claro que havia um limite em colocar a tecnologia como fim em si mesma.

Breque e seus colaboradores propõem justamente esse avanço responsável, mantendo as conquistas do movimento 4.0, mas recuperando as necessidades humanas como foco central do desenvolvimento. Sendo assim, são propostos três pilares para a Indústria 5.0.

  • Centralidade do ser humano (human centricity): o indivíduo é visto como foco da atividade produtiva, e a tecnologia amplifica as capacidades do trabalho humano de forma inclusiva;
  • Sustentabilidade: os limites planetários são explicitamente respeitados e colocados no mesmo patamar, ou até acima, da produtividade e do lucro a qualquer custo;
  • Resiliência: deve-se procurar criar sistemas produtivos capazes de se adaptar rapidamente a mudanças, aplicando-se esse conceito a cadeias de suprimento como um todo.

A aprendizagem continuada

Com as mudanças tecnológicas e organizacionais (por exemplo, trabalho virtual, equipes diversas), trabalhadores de todas as funções devem ser capazes de lidar com uma gama cada vez maior e mais complexa de situações. Não deveria surpreender, portanto, que a aprendizagem ao longo da vida, o lifelong learning, tenha se tornado uma das prioridades estratégicas de empresas.

Na realidade do trabalho cada vez mais tecnológico e conectado, precisamos nos adaptar a novas funções, responsabilidades e processos organizacionais. Não é fácil, de fato, demonstrar tanta capacidade de aprendizagem, flexibilidade e resiliência.

Essa dificuldade é ilustrada pela avaliação de competências de adultos, o Programme for the International Assessment of Adult Competencies, ou PIAAC, também aplicado pela OCDE. No relatório do Education at a Glance de 2025, foi publicado um resumo dos resultados obtidos em 2012 e em 2023. Conclusão? O nível demonstrado de competência em literacia e numeracia piorou ao longo desse período, na maior parte dos países membros. Infelizmente, o Brasil não participou do PIAAC, então não temos dados específicos para o país. No entanto, minha aposta é que também teríamos piorado.

Ou seja, em uma economia cada vez mais dinâmica e exigente, as pessoas não estão conseguindo acompanhar o ritmo da mudança. É um problema, mas também é uma oportunidade.

Leia mais: Estudantes do futuro: lifelong learning e aprendizado contínuo

O ecossistema digital da Educação 5.0

Conforme foi dito acima, o movimento 5.0 como pilar fundamental a centralidade do ser humano e das necessidades humanas. Portanto, as tecnologias aplicadas à educação e à aprendizagem devem estar orientadas por esse fundamento. Tecnologias como inteligência artificial, realidade virtual e aumentada, big data, são algumas das possibilidades que formam oicerce desse novo cenário.

A aprendizagem ao longo da vida precisa ser flexível e aplicada para atender às necessidades de profissionais que devem dar conta de novas tarefas e não têm muito tempo para o processo de aprendizagem. Sendo assim, a utilização estratégica e inteligente das tecnologias disponíveis propicia um ambiente de aprendizagem que é, a um só tempo:

  • Personalizado: individualizado e adaptativo;
  • Prático: aplicado e imersivo;
  • Flexível: modular e conveniente no tempo e no espaço;
  • Inteligente: preditivo e verificável.

Estratégias de aprendizagem como microlearning e microcertificações, que se tornam viáveis graças aos avanços tecnológicos, são centrais à proposta da Educação 5.0 e representam uma grande oportunidade tanto para empresas quanto para Instituições de Ensino Superior no sentido de possibilitar a capacitação contínua da força de trabalho.

Leia mais: Microcertificações e a aceleração da aprendizagem

Conclusão

Podemos questionar se a passagem para o referencial 5.0 é legítima ou se seria somente mais um caso de vinho velho em garrafa nova. De minha parte, acredito que seja um movimento genuíno de uma sociedade que em nível global, percebe que a tecnologia pela tecnologia não dará soluções para problemas cada vez mais prementes.

Um desses problemas, com ramificações variadas, é a formação para o trabalho e para a vida. Os dados mais recentes disponibilizados pela OCDE mostram que a população em faixas etárias adultas está perdendo o domínio de competências básicas, como domínio das linguagens verbal e numérica.

Soma-se a esse problema o desafio de reciclagem e requalificação constantes pelas quais todos precisam passar para se manter relevantes longo de trajetórias profissionais que poderão ser cada vez mais longas, em um cenário de mudanças cada vez mais rápidas.

 

Nova call to action

 

Nesse sentido, as tecnologias disponíveis no ecossistema da Educação 5.0, especialmente plataformas de certificação e microlearning, oferecem novas possibilidades de formação modulares e tempestivas, que podem ser incorporadas no currículo universitário ou na profissional com mais facilidade do que modelos tradicionais de formação.

Portanto, o desafio que temos à frente é como implementar processos de aprendizagem continuada de forma humana e estratégica. O ecossistema tecnológico já existe. O que falta é a decisão individual, organizacional e institucional de colocar essa infraestrutura a serviço do desenvolvimento humano sustentável. Em tempos interessantes, como os que vivemos, aqueles que aprendem continuamente não apenas sobrevivem: prosperam.

Referências

  • OECD (2025), Education at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/1c0d9c79-en
  • Bauman, Z. (2007). Vida líquida. Editora Schwarcz-Companhia das Letras
  • Breque, M., De Nul, L., & Petridis, A. (2021). Industry 5.0: Towards a sustainable, human-centric and resilient European industry. European Commission, Directorate-General for Research and Innovation. Luxembourg: Publications Office of the European Union. DOI: 10.2777/308407

 

Alexandre Gracioso
Alexandre Gracioso

Profissional com mais de 20 anos de experiência no ensino superior. Especializou-se em aprendizagem, desenvolvimento de competências socioemocionais e formação de líderes. De natureza inquieta, procura estar sempre atualizado das principais tendências referentes ao desenvolvimento humano e competências para o mercado de trabalho. Em suas atividades docentes, procura equilibrar a abordagem pessoal com as possibilidades tecnológicas. Recentemente, tornou-se sócio da Ideasense, empresa focada no desenvolvimento de Life Skills em organizações.

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