A diversidade está transformando as universidades brasileiras, ampliando o acesso, fortalecendo o desempenho e enriquecendo a formação de todos. Cotas e Prouni impulsionam um campus mais justo, mais dinâmico e mais preparado para o mundo real.
- Desempenho de cotistas e bolsistas
- Benefícios da diversidade para os estudantes
- Ambientes diversos e qualidade formativa
- Diversidade, clima acadêmico e pertencimento
- Uma agenda em aberto
Crescimento das ações de DEI no Brasil e mudança de perfil
A Lei 12.711, de 29 de agosto de 2012, veio a ser conhecida como a Lei de Cotas. Com o objetivo de promover a democratização do acesso às instituições federais de ensino superior, ela representa um marco na agenda DEI no ensino superior brasileiro, tanto pelo impacto concreto na composição do corpo discente, quanto pelo simbolismo político de se reconhecer a desigualdade estrutural no acesso à universidade. Alguns anos antes, em 2005, com o objetivo de ampliar a entrada de alunos de baixa renda e de escola pública no ensino superior particular, havia sido criado o Prouni, que de fato mudou o perfil dos entrantes no sistema privado.
Ambos os programas recebem críticas e elogios e é certo que tudo pode ser melhorado. No entanto, do ponto de vista de aumento da diversidade no campus, é inegável que os dois foram bem sucedidos. Por exemplo, com a Lei de Cotas, entre 2012 e 2019, Trevisol, Bello & Nierotka (2023) relatam que o percentual de calouros que entraram por algum tipo de reserva de vagas passou de 13% para 40%. Para o setor particular, Almeida (2017) demonstrou que o percentual de matrículas de negros (pretos e pardos) no ensino superior, que era de cerca de 15% antes do Prouni, aumentou para 50% até 2014.
Principalmente no início dos programas de cotas, falava-se no receio de que as políticas de inclusão permitiriam a entrada de estudantes com pior desempenho acadêmico. Mas será que isso aconteceu mesmo? É o que veremos a seguir.
Desempenho de cotistas e bolsistas
Durante vários anos, pesquisadores questionavam se a ampliação da diversidade via cotas e Prouni teria “reduzido o nível” do ensino superior. Com mais de uma década de dados, agora sabemos a resposta para essa pergunta, que é legítima. E o consenso, a partir dos estudos empíricos realizados, é que isso não ocorreu. Pelo contrário, como mostram Silva & Araújo (2021), estudantes cotistas apresentam rendimento acadêmico similar ao de não-cotistas e, em vários casos, melhores resultados em diplomação e menores taxas de evasão. Os pesquisadores relatam que, em um dos conjuntos analisados, 33% dos cotistas concluíram o curso no período estudado, contra 26% dos não-cotistas.
Também foram elaborados estudos que utilizam os resultados do ENADE como medida de desempenho. Becker (2019 e 2021) e o IPEA (2019) demonstram que o resultado médio de cotistas é equivalente ou superior ao de não-cotistas no ENADE.
O Prouni também foi objeto de estudos que compararam o desempenho de bolsistas com pagantes. De forma geral, os resultados se mantêm. Utilizando os microdados do ENADE, Dutra (2017) mostrava que o programa aparece associado a elevação significativa do desempenho médio, especialmente entre alunos de baixa renda. Becker (2019 e 2021) mostrou que o impacto positivo do Prouni se distribui ao longo de toda a distribuição de notas, sendo mais forte para estudantes que recebem bolsa integral.
Benefícios da diversidade para os estudantes
Menos discutido, mas igualmente importante, é o impacto da maior diversidade sobre os demais estudantes, isto é, aqueles que não ingressaram por cotas nem são bolsistas de programas como o Prouni. Existem, comparativamente, menos estudos sobre este assunto, porém, as conclusões dos trabalhos já realizados oferecem pistas importantes sobre os benefícios da diversidade para todos os estudantes, o que está em linha com resultados internacionais sobre os efeitos da diversidade em ambientes de aprendizagem.
Ambientes diversos e qualidade formativa

Estudos como o de Campos (2022) argumentam que, mais do que ocupar vagas ociosas, a entrada de novos grupos promoveu alterações nas dinâmicas de sala de aula e nos temas de pesquisa. A jornalista Isabela Vieira (Vieira, 2025) visita o livro “Impacto das Cotas: duas décadas de ação afirmativa no ensino superior brasileiro”, dos pesquisadores Luiz Augusto Campos e Márcia Lima, que reúne 35 artigos com um balanço das cotas. A conclusão principal de todos esses estudos é que o rosto da universidade brasileira mudou no sentido de uma maior diversidade, com aumento significativo nas matrículas de estudantes pretos, pardos e indígenas e oriundos das classes C, D e E. Para os pesquisadores, essa maior diversidade amplia a visão de mundo de todos os estudantes.
Mas os ganhos vão além do repertório cultural. Ambientes mais diversos tendem a favorecer o desenvolvimento de competências socioemocionais, habilidades de convivência intercultural e empatia, hoje centrais tanto para cidadania quanto para empregabilidade. Ou seja, mesmo na ausência de um efeito mensurável nas notas dos estudantes não-cotistas e não-bolsistas, há ganhos em termos de capacidade de trabalhar em equipes heterogêneas, lidar com conflito e demonstrar alteridade.
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Diversidade, clima acadêmico e pertencimento
Lima e Campos (2020) mostram que a redução da desigualdade de acesso e a maior visibilidade de estudantes negros e de baixa renda tendem a diminuir a sensação de isolamento e a estigmatização, sendo estes problemas agudos enfrentados por grupos com menos representatividade nas turmas de ingressantes. Isso não quer dizer que a discriminação tenha sido superada, ainda existindo tensões (Campos, 2022). No entanto, os pesquisadores concluem que um clima institucional menos hierárquico e menos homogêneo favorece as relações entre os estudantes, beneficiando a todos.
Para os demais estudantes do ensino superior, isso se traduz na oportunidade de aprender a trabalhar com colegas cujas trajetórias de vida são muito diferentes das suas, fortalecendo a capacidade de lidar com repertórios culturais e visões de mundo diversas. Em nível internacional, os benefícios de ambientes acadêmicos diversos são estudados principalmente nos EUA. Estudos como os de Gurin et al. (2002) e Milem, Chang & Antonio (2005) mostram que turmas diversas geram efeitos de pares positivos para todos os estudantes: quanto maior for a exposição a pontos de vista divergentes, maior será o aumento nas habilidades de resolução de problemas complexos e na tolerância a diferenças.
Uma agenda em aberto
É fato que ainda são raros, ao menos no Brasil, os estudos que isolem o impacto da maior diversidade gerada pela política de cotas e pelo Prouni sobre o desempenho acadêmico, a empregabilidade e o comportamento dos estudantes não-beneficiários. Mas, por outro lado, existe um conjunto robusto de evidências de que esses instrumentos não prejudicam o desempenho médio do sistema. Além disso, eles claramente melhoram os resultados dos estudantes participantes. Portanto, as políticas de inclusão devem ser apoiadas pela sociedade, não há motivo para um retrocesso nessa frente.
Especificamente para as Instituições de Ensino Superior, a mensagem é que políticas de DEI não são apenas “políticas compensatórias” voltadas a corrigir desigualdades passadas; elas elevam o patamar da experiência universitária para todos. 
Referências
Almeida, W. M. (2017). PROUNI E O ACESSO DE ESTUDANTES NEGROS AO ENSINO SUPERIOR. Revista Contemporânea de Educação, 12(23), 89-105.
Becker, K. L. (2019). Avaliação de impacto do Prouni sobre a performance acadêmica dos estudantes (Texto para Discussão nº 2512). Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). https://repositorio.ipea.gov.br/items/8cb3da73-c6e1-436c-a096-f5e94d137dbf
Becker, K. L. (2021). Avaliação do impacto do Prouni na nota Enade dos estudantes de instituições privadas de ensino superior. ECOA – Cadernos de Ensaios, 1(1), 1–25. https://revistas.usp.br/ecoa/article/download/161118/177647/527433
Campos, L. A. (2022, 5 outubro). A diversificação racial e econômica do ensino superior público brasileiro depois das cotas. GEMAA – Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa. https://gemaa.iesp.uerj.br/ensaios/a-diversificacao-racial-e-economica-do-ensino-superior-publico-brasileiro-depois-das-cotas/
Dutra, K. T. (2017). Efeito do Prouni no desempenho acadêmico: Uma estimação utilizando propensity score matching. In VII Congresso da Associação Latino Americana de População (ALAP). https://files.alapop.org/congreso7/files/pdf/399-480.pdf
Gurin, P., Dey, E. L., Hurtado, S., & Gurin, G. (2002). Diversity and higher education: Theory and impact on educational outcomes. Harvard Educational Review, 72(3), 330–366. https://doi.org/10.17763/haer.72.3.01151786u134n051
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. (2019). Impacto das cotas no desempenho de estudantes no ensino superior público federal (Relatório técnico). Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. https://www.ipea.gov.br/ppp/index.php/PPP/article/view/1414
Lima, M.; Campos, L. A. (2020). Inclusão racial no ensino superior: Impactos e desafios. Cadernos de Pesquisa, 50(177), 1–25. https://www.scielo.br/j/cp/a/55835MZ59zxm5FxTK3nPQtr/
Milem, J. F., Chang, M. J., & Antonio, A. L. (2005). Making diversity work on campus: A research-based perspective. Association of American Colleges and Universities. (Resumo disponível em https://web.stanford.edu/group/siher/AntonioMilemChang_makingdiversitywork.pdf)
Silva, L. C., & Araújo, R. M. de L. (2021). Impactos das cotas no ensino superior: Um balanço do desempenho dos cotistas nas universidades estaduais. Revista Brasileira de Educação, 26, e260015. https://www.scielo.br/j/rbedu/a/pJbNpfcXxbkPtzwg3CWrSMD/?lang=pt
Trevisol, Joviles Vitorio; Bello, Joselha Cristina Dal; & Nierotka, Rosileia Lucia. (2023). A lei de cotas e as mudanças no perfil dos ingressantes das universidades federais brasileiras. Série-Estudos, 28(64), 155-184. Epub 05 de janeiro de 2024.https://doi.org/10.20435/serieestudos.v28i64.1784
Vieira, I. (2025, 16 junho). Ações afirmativas mudaram “a cara da universidade no Brasil”. Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025-06/acoes-afirmativas-mudaram-cara-da-universidade-no-brasil-diz-estudo
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