A evolução da inteligência artificial está transformando o mercado de trabalho e ampliando os desafios para os jovens. A Bússola da Aprendizagem 2030, da OECD, destaca a importância da autonomia, da aprendizagem contínua e do desenvolvimento de competências socioemocionais e transformadoras para que as novas gerações enfrentem a incerteza e construam um futuro mais sustentável e inclusivo.


  1. A Bússola da aprendizagem 
  2. Competências transformadoras para 2030 
  3. Conhecimentos e habilidades fundamentais  
  4.  Conclusão 

Decididamente a situação não está fácil para os jovens. Um artigo recente falando do mercado de trabalho no Canadá (The Canadian Press, 2025) afirma que as posições que estão sendo mais afetadas pela IA até o momento são justamente aquelas que seriam ocupadas pelos jovens. Posições com tarefas mais rotineiras e mais facilmente automatizáveis. Esse é um problema global e o Brasil também enfrenta uma situação similar. Dados recentes do IBGE mostram que o Brasil vai pelo mesmo caminho e que a taxa de desemprego entre jovens já é o dobro da média da população (istoÉ Dinheiro, 2025) e já chega a quase 15% entre os jovens com idade de 18 a 24 anos.

O futuro parece cada vez mais incerto e imprevisível, portanto, como devemos preparar os jovens para enfrentar essa situação?

Essa questão foi agravada com o advento da IA, mas não é nova. Tanto já se falava nisso que a OECD se debruçou sobre o assunto já em 2019 e publicou uma série de notas e relatórios (OECD, 2019 - referências 2019a a 2019h) sobre as competências que os jovens precisam desenvolver pensando na empregabilidade e no bem-estar até 2030. As conclusões são muito interessantes e, com a aceleração do avanço da tecnologia, se tornam ainda mais atuais.

A Bússola da aprendizagem

Pensando nessa incerteza, a OECD propôs a figura da Bússola da Aprendizagem 2030 (Learning Compass 2030), uma alegoria que procura se distanciar de mapas rígidos e trazer uma ideia de navegação que supera obstáculos rumo a uma meta, um norte (OECD, 2019d). Imediatamente percebemos que o futuro da aprendizagem não é linear nem tem um fim determinado, trata-se de um ciclo contínuo (OECD, 2019a). Ao contrário de modelos educacionais tradicionais, a bússola da aprendizagem enfatiza uma aprendizagem ativa que integra conhecimento, habilidades, atitudes e valores, com a finalidade de potencializar o bem-estar dos jovens e da sociedade. A OECD alerta para o fato de que, com a tecnologia automatizando tarefas rotineiras (isso já acontecia em 2019 e acontece com mais força atualmente), os jovens precisam de competências que as máquinas não replicam: inovar e criar valor, reconciliar tensões e dilemas, e assumir responsabilidade pelo coletivo (OECD, 2019g).

Um dos pilares centrais é a autonomia estudantil (student agency) (OECD, 2019f), definida como a habilidade de definir metas, refletir sobre ações e influenciar positivamente o próprio caminho e o mundo ao redor. Nesse conjunto de relatórios e notas técnicas, a OECD destaca o fato de que estudantes com maior grau de autonomia demonstram maior motivação para a aprendizagem, por exemplo, além de maior capacidade de se mobilizar para o atingimento das próprias metas.

Entre outras decisões importantes sobre suas próprias vidas, os jovens irão direcionar sua própria aprendizagem por meio de um ciclo contínuo denominado Ciclo Antecipação-Ação-Reflexão (AAR), ou Anticipation-Action-Reflection Cycle. Juntamente com a autonomia estudantil, o ciclo AAR é o componente central da Bússola da Aprendizagem 2030. O ciclo foi pensado como um referencial para trilhar uma jornada de aprendizagem contínua ao longo da vida, sempre em níveis mais aprofundados de reflexão e compreensão da sociedade e dos desafios coletivos.

O ciclo AAR depende de jovens estudantes bem informados e interessados no bem comum, tanto quanto no individual. Na fase da Antecipação, o estudante é capaz de projetar as consequências de tomar uma ou outra decisão, demonstrando disposição e autonomia para tomar ações informadas.
Na fase da Ação, o estudante age no sentido de atingir metas e objetivos que contribuam para o bem estar individual e coletivo, de forma responsável. Finalmente, a Reflexão pede um aprofundamento na compreensão da realidade para que melhores decisões possam ser tomadas no futuro.

Competências transformadoras para 2030

Um conceito fundamental no referencial proposto pela OECD em sua Bússola 2030 é o das competências transformadoras (OECD, 2019g): inovar e criar valor, reconciliar tensões e dilemas, e assumir responsabilidade pelo coletivo.

A primeira competência diz respeito à capacidade de inovação com objetivo de melhorar vidas. Isso pode ser feito tanto por meio do desenvolvimento de soluções sustentáveis quanto por estratégias de negócios inclusivos ou pela geração de conhecimento benéfico especialmente para comunidades em condições de vulnerabilidade.

A segunda competência, reconciliar tensões, refere-se à capacidade de navegar o mar de conflitos entre interesses pessoais, sociais, nacionais e ambientais. Um exemplo potente é dado pela necessidade de equilibrar crescimento econômico impulsionado pela IA com a preservação de empregos e a redução de desigualdades. No contexto brasileiro, onde o desemprego jovem é elevado, essa habilidade é mesmo fundamental. A OECD enfatiza que essa competência socioemocional está enraizada na empatia, na alteridade, no respeito, e que ela é essencial para o bem-estar da coletividade.

Assumir responsabilidade pelo coletivo direciona o olhar dos jovens para ações que contribuem com comunidades vulneráveis e com o planeta. Com a tecnologia acelerando cada vez o ritmo das mudanças, é importante assumir uma atitude ativa em relação à solução de problemas coletivos. Dessa forma, os jovens precisam liderar mudanças positivas no que diz respeito a grandes desafios globais como a automação do trabalho, as mudanças climáticas e a polarização política, para citar alguns. A OECD entende que esta capacidade está intimamente conectada a competências como autoconhecimento, resiliência, empatia, autoconsciência e autorregulação.

A OECD destaca, ainda, a necessidade de se considerar as implicações morais e éticas das ações, especialmente para garantir que o poder crescente da IA seja usado para o benefício de todos, como propõe o conceito da Sociedade 5.0. Assumir responsabilidade implica, inevitavelmente, questionar eticamente nossas ações.

Conhecimentos e habilidades fundamentais

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Essas competências transformadoras são de alto nível e dependem de competências de base, mais fundamentais. Especificamente, a OECD reconhece a importância de competências como literacia, competências socioemocionais e a capacidade de trabalhar com conhecimento de uma forma inter e transdisciplinar.

As competências fundamentais propostas pelo extenso referencial da Bússola 2030 podem ser divididas em dois grandes grupos, o das competências cognitivas e o das competências socioemocionais, as soft skills.

As competências cognitivas (OECD, 2019c) dizem respeito ao desenvolvimento do que os relatórios chamam de competências fundamentais de literacia e “numeracia” (numeracy). A OECD define a literacia como a capacidade de “compreender, interpretar, usar e criar informação textual e visual em vários formatos e para diversas finalidades” (p. 4). Já a “numeracia” é definida como “a habilidade de acessar, usar, interpretar e comunicar informações e ideias expressas por números em situações variadas” (p.4). Ou seja, a aceleração da vida digital requer capacidades de base cada vez mais bem desenvolvidas.

Entende-se que competências socioemocionais, como comunicação, criatividade, liderança, empatia, inteligência emocional, sejam mais difíceis de serem emuladas pela IA (OECD, 2019e) e isso significa que os jovens precisam, necessariamente, desenvolver essas capacidades. Não só isso, precisarão continuar a refinar a sua maestria socioemocional durante toda a vida, o que requer “flexibilidade, um atitude positiva em relação ao aprendizado ao longo da vida, e curiosidade” (p.2).

Finalmente, a incorporação de conhecimentos interdisciplinares se faz cada vez mais necessária, se o desenvolvimento das competências cognitivas e socioemocionais for levado realmente a sério. Por exemplo, fala-se muito em literacia financeira, conhecimento que requer insumos de diversas disciplinas de base. O mesmo pode ser dito em relação ao desenvolvimento de competências como inteligência emocional.

Leia também: 👉 Os 7 Pilares da Inclusão no ensino superior

Conclusão

Então, como devemos preparar os jovens para o futuro do trabalho? Que competências serão necessárias em um futuro incerto?

A Bússola da Aprendizagem 2030 da OECD nos ajuda a responder a essas questões por meio de um roteiro aspiracional, que propõe preparar os jovens não como meros consumidores das possibilidades tecnológicas, mas como criadores de um mundo interdependente em que o bem-estar individual e coletivo é tido como principal norteador do desenvolvimento.

Ao priorizar a autonomia estudantil com o ciclo AAR e enfatizar competências transformadoras e de base, a educação atende as necessidades do mundo profissional e também as transcende. É claro que deve-se ter em mente que esses pilares dependem de atitudes e valores fundamentais (OECD, 2019b). Porém, professores e gestores educacionais têm a oportunidade de transformar essa visão em realidade: adotando o AAR em sala de aula, incorporando o desenvolvimento de competências socioemocionais no currículo, reconciliando o global com o local, com o individual. Só assim os jovens não só sobreviverão às incertezas, como também estarão preparados para moldar um mundo melhor para 2030 e além.


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Referências

Alexandre Gracioso
Alexandre Gracioso

Profissional com mais de 20 anos de experiência no ensino superior. Especializou-se em aprendizagem, desenvolvimento de competências socioemocionais e formação de líderes. De natureza inquieta, procura estar sempre atualizado das principais tendências referentes ao desenvolvimento humano e competências para o mercado de trabalho. Em suas atividades docentes, procura equilibrar a abordagem pessoal com as possibilidades tecnológicas. Recentemente, tornou-se sócio da Ideasense, empresa focada no desenvolvimento de Life Skills em organizações.

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